Colírio do dia

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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Pela Vida

Artigo de Opinião


Certo dia, trocando de canal em busca de algo interessante na televisão (coisa cada vez mais rara), deparei-me com uma propaganda que me causou espanto. Era uma moça que comentava sobre os direitos conquistados pela mulher no decorrer dos anos, conquistas essas que cada vez mais aproximam a sociedade atual do ideal igualitário. Até aí tudo bem. Mas, no fim, ela defende que as mulheres devem ter o direito de decidir o que é o melhor para si, praticando o aborto no caso de um filho indesejado. Mas ora essa, onde já se viu! Não quero nem de longe criticar o direito da livre expressão de opinião, mas por que incitar o assassínio de crianças indefesas que acabaram de obter a oportunidade da vida? Será que o ser humano tem o direito de dispor da sua vida ou de qualquer outra?
Desde o início das organizações sociais e religiosas humanas, a vida de cada ser foi considerada um pertence. Nos primeiros tempos em que a ignorância e pulso falavam ainda mais forte, a soberania e o bom-humor dos “Deuses”, além dos caprichos dos lideres terrenos, comandavam o destino de muitas vidas, que poderiam ser submetidas à sacrifício, muitas vezes na busca de um bem maior para a sociedade. Neste caso, a principal motivação é a ignorância, ou seja, comete-se um crime sem realmente saber. Isso ainda funciona até hoje em algumas tribos menos “civilizadas”. Apesar de desumano, ainda é relevável, pela falta de conhecimento. Mas na atualidade do mundo intelectualmente desenvolvido, onde a ignorância selvagem não é mais justificativa, a vida continua sendo posse de seus integrantes. Se uma moça e seu parceiro têm um filho indesejado, comete-se aborto por pensarem que não se acham em condição de criá-lo ou que não poderão “aproveitar a vida”; se um doente está em estado terminal, numa situação desesperadora, decide-se pelo sacrifício numa tentativa infundada de aliviar seu sofrimento; um criminoso, ao causar danos praticamente irreversíveis à sociedade, é, em alguns lugares, levado a pena de morte, ou pelo poder público ou pelo popular, que por vezes comete o absurdo da execução por linchamento; aquele ser que amarga uma derrota no terreno do amor ou dos negócios, ao perder por completo o interesse pela vida, numa tentativa inútil de aliviamento, acaba por cometer o suicídio. Em cada uma dessas situações existem vários fatores de risco, de dor e de sofrimento que devem ser levados em conta, mas numa sociedade racional como a nossa, devemos entender que, mesmo em casos como esses, nada justifica a interrupção de uma vida.

Nossa sociedade, que está em constante desenvolvimento intelectual e moral, para se desvencilhar totalmente destas correntes da ignorância, da maledicência e da displicência para com a vida alheia, deve passar por uma grande, lenta e natural evolução de mentalidade e cultura, em todas as regiões do planeta. Todos devem entender e ter como verdade incontestável o direito universal da vida, assim compreendendo que esta não é um pertence, e sim um estado a que pertencemos e que ninguém tem o direito de tentar descartá-la. No caso do aborto, é incabível se pensar apenas no próprio umbigo e esquecer do ser que dentro do útero materno está se desenvolvendo e isto vale para pai, mãe e todo o resto que se envolve numa tentativa de impedir criminosamente o nascimento desta criança que já existe desde a concepção. Mas e os filhos de casos de estupro? Não importando o pai, este ser em formação está vivo e não tem culpa de ser uma conseqüência do acontecido. Talvez até venha sim como uma benção para esta mãe. Já na eutanásia, ao invés de impedir o sofrimento, debita-se uma chance crucial de elevação e renovação tanto do doente, quanto da família. Talvez até o enfermo em fase terminal sofra uma reviravolta e, mesmo que por pouco tempo, ainda possa permanecer por aqui, como já aconteceu em alguns casos, o famoso milagre. E mesmo que isto não aconteça, não é nosso o direito de encurtar a existência de alguém. Assim, por esse mesmo motivo, a pena de morte também é ilógica. Não se pode julgar se alguém que cometeu um erro, mesmo grave, tem ou não o direito de viver, impedindo até uma possível regeneração. Além, é claro, dos erros judiciais, em que anos mais tarde se descobre que a vítima desta pena não tinha culpa de nada. Falando nisso, a própria culpa é que muitas vezes leva o ser a situação extrema do suicídio. Talvez este seja o mais complicado dos atentados à vida citados aqui. Mesmo que o suicida saiba que esta ação vai prejudicar tanto a sua vida quanto a das pessoas a sua volta, é difícil salvá-lo de sua fixação mental em resolver os seus problemas através da fuga. Apesar do traço de covardia neste ato, não se deve ter indignação com o autor, e sim pena e compaixão com este ser que está em dificuldades, mesmo por que não sabemos se na mesma situação não sucumbiríamos.





Como a complexidade e a polêmica destes assuntos nos levam a grandes discussões, essas divergências de pensamentos fazem com que cada um defenda seu modo de pensar e tente difundi-lo através de uma propaganda, por exemplo, ou um artigo de opinião. Mas é importantíssimo que nestes assuntos pelo menos estas três grandes coisas devam ser levadas em conta: A situação que a pessoa ou a sociedade está vivendo, ou seja, a causa dos atos, por isso não devemos condenar e sim tentar ajudar; as conseqüências dos atos, que podem ser altamente destrutivas tanto para a vida de alguém quanto para a paz de espírito dos envolvidos; e, por fim, o mais importante e que deve ser a principal referência para nossas ações, como um todo, é o amor pela vida.


Victor Ribeiro Moura, 2º Colegial

2 comentários:

Marcos Marcílio disse...

Muito interessante o seu ponto de vista, Victor... Texto bom como sempre. Parabéns.

Paulo de Lelinha disse...

eita puxação de saco, hehehe. Hey marcos, seja bem vindo! De fato o texto está bom e dá que pensar...
Abraço